Assassino de Caldarias – Parte 07

Capa do Contos do Biel o Bardo parte 7. Fundo azul com sombras. Nas laterais, linhas desenhadas formam um contorno, no topo centralizado vem O Beholder Cego. A baixo: Contos do Biel o Bardo. A baixo pictograma de uma pessoa escorregando A baixo: O Assassino de Caldarias - Parte 7

Droga. Droga. Droga!

Eu falei pra você que eu sentia o cheiro de um cão sarnento entre os nossos, você tem que confiar nos meus instintos.

– Cala a boca Frank, eu sei que você está puto mas eu também estou, agora para de fazer essas merdas que você já está me dando nos nervos.

Frank estava impaciente e quando isso acontecia pequenos acidentes começam a acontecer no ambiente. Pessoas tropeçando umas nas outras e xícaras de café se espatifando no chão sem nenhum motivo aparente.

Isso só piorava o caos de pessoas apavoradas que se moviam pela delegacia tentando achar algo que poderia levar ao assassino, e a garota, Stephanie.

Baggio fechou os olhos, massageou a têmpora. A privação de sono era cruel mas ele poderia dormir mais tarde. Ele abriu os olhos e se concentrou na charada, seus olhos saíram de foco e ele quase bateu a cabeça na mesa.

Levantou e pegou um café frio, se tinha uma coisa que tanto ele como Frank odiavam era café frio. Um gole daquele troço e ele se arrepiou, sentou novamente na mesa, cruzou os dados mesclando as frases do papel com possíveis locais da cidade de Caldarias que dariam um ótimo esconderijo a um assassino serial.

A notícia da identidade do assassino já tinha vazado. Nesse instante antigos vizinhos eram tirados da cama para dizer o que lembravam da antiga família e do jovem que tinha se tornado um assassino para vingar a morte da irmã adolescente. Briefings eram montados no ar, enquanto tapes eram exibidos em vários canais da tv aberta e paga.

Vanessa olhava para Baggio com verdadeira preocupação. Para ela o detetive parecia à beira de um ataque de nervos e para ajudar a pseudo noite mau dormida não tinha facilitado as coisas.

Os fracassos e as viagens tinham minguado o homem, hoje ele era apenas uma sombra daquele que chegou a um tempo atrás. Ela caminhou até ele, pousou uma mão em seu ombro e perguntou:

– O que você está procurando detetive? Se me disser pode ser que eu consiga ajudar em alguma coisa.

– Qualquer coisa! Ele respondeu, sua voz era grossa e cansada, beirando a estupidez. O modo como Baggio disse fez com que a frase tivesse o mesmo efeito que um tapa na cara da oficial. O detetive vendo a expressão da moça mudar, respirou fundo e amenizou seu tom, como se fizesse da frase um pedido de desculpas.

– Estou procurando qualquer coisa que possa revelar o paradeiro desse maníaco. A charada não faz sentido, temos carros de policia por toda a cidade e mesmo assim ninguém achou nada. O que me deixa mais puto é saber que ele está um passo à nossa frente. Ele sabe como trabalhamos enquanto nós não sabemos quase nada dele.

Vanessa ficou calada, a desculpa parecia apenas outra forma de dizer que o seu departamento tinha falhado. O assassino tinha se infiltrado dentro da delegacia e ninguém havia notado.

Ela pegou alguns livros em cima da mesa e começou a revirar as páginas, olhou ao redor reparando que toda a delegacia parecia desperta as seis da manhã, mesmo os investigadores do turno da noite ajudavam procurando pistas em bancos de dados antigos e até mesmo nas caixas do porão, onde casos insólitos eram guardados.

Baggio sentiu sua mão tremer, fechou o punho para conter o espasmo, fechou os olhos rezando para Vanessa não perceber nada. A voz fantasmagórica do espírito inundou seus ouvidos como o mar que entra em um navio rachado.

– Já vi você apanhar, sangrar e até mesmo cair em uma fossa sem fundo por causa de mulher mas é a primeira vez que vejo você tomando uma surra! Você não se tocou ainda Baggio?

Isso é um jogo daqueles bem nerds, a merda de um tabuleiro de xadrez ou RPG, eu sei lá. Só sei que você chegou no final e só têm mais um movimento antes dele ferrar o teu rei e o que é que o grande detetive baggio vai fazer? Vai voltar pro quarto e ficar chorando ou vai agir como homem?

Felipe encarou Frank e fez um sinal com os olhos para o fantasma segui-lo ao banheiro. Ele se levantou pediu licença a Vanessa culpando o café, o sorriso do detetive pareceu abrandar um pouco a impressão de cansaço que ele estava.

No mesmo instante o telefone da delegacia tocou, um psiquiatra muito preocupado com o comportamento de um certo detetive, precisava muito falar o Capitão Fabiano sobre seu hóspede.

Uma vez dentro do banheiro, Felipe checou todos os boxes do lugar, foi até a porta, virou a chave trancando o ambiente, estralou o pescoço se virando para o fantasma.

Frank olhava aquela cena com curiosidade, ele nunca tinha visto Baggio fazendo aquilo, na verdade, a única vez que viu um olhar daqueles era durante um motim da sua tripulação.

Baggio avançou contra o fantasma e desferiu um soco com toda sua raiva reprimida contra o rosto do fantasma, o maxilar do fantasma trincou e ele foi jogado para trás.

Frank bateu com força na louça do primeiro vaso quebrando a porcelana. O fantasma se levantou meio sem acreditar que aquilo tinha acontecido, ele gritou em fúria e partiu para cima do detetive. Baggio se desviou do soco e segurando o fantasma pelo cabelo ele bateu a cabeça do pirata contra a pia.

Frank se reequilibrou e chutou o detetive no peito jogando ele contra um dos Box. Felipe caiu sentado no chão mas se levantou rapidamente com a adrenalina correndo freneticamente pela corrente sanguínea.

Baggio sorriu desdenhosamente e disse: isso é o melhor que você pode fazer, gasparzinho?

Frank riu e partiu para cima do amigo. Quinze minutos depois, Felipe estava sentado ao lado de Frank no chão do banheiro. O fantasma tinha vários hematomas e escoriações que iam sumindo a olhos vistos, enquanto Baggio parecia bem pior, com o nariz sangrando, o lábio superior aberto e a roupa molhada.

– Frank, sério cara, se você sabe alguma coisa, já passou da hora de falar.

– Pra que? Qual o seu objetivo? Salvar essas mulheres? Você sabe que elas merecem isso cara. Elas só estão colhendo o que plantaram, eu posso ler isso nos seus olhos, você as considera tão culpadas quanto o cara que está fazendo isso.

– Cala a boca, esse cara matou quatro garotas e Deus sabe mais quantas antes disso. O que aconteceu com elas no colégio foi um acidente. Elas tem culpa mas não tem o sangue nas mãos, você sabe como é matar uma pessoa, elas não fizeram isso, não por querer.

– O pior cego é aquele que não quer ver. A maior prova disso é que o cara estava ali do seu lado o tempo todo e você nem ao menos se tocou disso mas se você quer ajudar a garota do trem, ok. Vamos nessa. Mas confia em mim, ta tudo na sua cara.

– Como assim?

– A irmã dele queria ser popular, era tipo um pirata jovem querendo ser mais um dos sete grandes. Já o assassino não se importava com isso. Dá pra ver pelos anuários deles, ela toda maquiada, fazendo o bico de pato ridículo e ele nem espremeu as espinhas.

– Ele é um nerd igual a você! Agora me diz: aonde que eu vou achar informações sobre nerds? Em shoppings ou casas na árvore? Vocês tem que ir aonde eles estão saca?

– Você acha que ele está usando um desses lugares de esconderijo?

– Aposto meia garrafa de rum.

– Você não tem nem uma garrafa vazia pra apostar.

– Não preciso ter uma garrafa, eu vou ganhar, é você que tem que ter a garrafa!

Baggio se levantou e olhou no espelho. A adrenalina da luta tinha mandado embora o sono, o cansaço e a apatia, de quebra deixou alguns ferimentos para tratar. Ele jogou água no rosto e fez uma careta quando o líquido gelado bateu no lábio lavando o ferimento. Secou-se usando o rolo de papel, arrumou o colarinho e voltou para a sala investigação.

– Estou falando Vanessa, o médico que me ligou disse que ele é maluco! Ele vê coisas, fala sozinho, soube que se envolveu em algumas coisas bizarras na Inglaterra.

– Capitão, ele pode ser maluco, mas é o oficial que mais está por dentro da investigação. Sem contar que se não fosse os esforços dele, nunca conseguiríamos descobrir a identidade do assassino.

– Eu já tomei minha decisão! Não se intrometa. O capitão se virou para falar com o detetive Baggio.  Fabiano deu um passo para trás ao reparar nos machucados do detetive e sem nenhum pudor perguntou: por Deus, o que aconteceu com você homem?

– Uma pequena queda no banheiro. Não percebi o chão molhado e estava com sono. Quando eu entrei, escorreguei e cai de cara na privada. Foi ridículo mesmo.  Eu queria ter uma câmera lá para mandar o vídeo para “os maiores idiotas da terra”, ou pelo menos para o partoba, se eu não ganhasse um prêmio eu pelo menos ficaria famoso.

– É, sei, vou pedir para alguém limpar o local,  deixando de lado isso detetive Baggio, eu recebi uma ligação do doutor Ocelot e ele me pareceu muito preocupado com sua condição.

– Ah, o bom doutor Ocelot. Espero que ele esteja bem, ele sempre se preocupa demais com a gente.

– É, pois bem, pelo visto está na hora de você retornar a Inglaterra, nós assumiremos daqui pra frente, desde já somos gratos por toda a consultoria prestada.

Sem demonstrar surpresa Baggio sorriu e respondeu:

– Muito bem, estarei retornando amanhã mesmo a Inglaterra, só pretendo ir para o hotel e descansar enquanto vocês fazem o seu trabalho. Agradeço a todos pela hospitalidade brasileira que eu tanto lembrava. Peço desculpas se em algum momento ofendi ou chateei o senhor com meus comentários.

– Não há nada para se desculpar homem, vá em paz. Disse um capitão Fabiano aliviado de saber que o homem partiria no dia seguinte, um problema a menos para se preocupar.

Dizendo isso Baggio saiu porta a fora se dirigindo à entrada principal da delegaci. Enquanto andava, digitava rapidamente em seu celular as palavras quadrinhos, RPG e Caldarias. Logo o banner de uma loja apareceu na tela do smartphone e Felipe pegou o endereço, enquanto procurava um taxi.

Vanessa alcançou o detetive na porta de saída da delegacia. Ela parecia sem jeito ao se aproximar do detetive, seu rosto, uma máscara de poker, escondia qualquer emoção. Ele a encarou e ela falou com certa amargura na voz.

– Você vai desistir da caçada e ir embora?

– Meu trabalho aqui acabou, você ouviu o delegado, a minha presença aqui pode ser encarada como obstrução de justiça e posso acabar te ferrando, você ouviu o homem, ele acha que eu sou pinel.

– Não tinha nenhuma poça de água no banheiro, tem sangue seu na pia, no vaso, se eu não tivesse visto você entrando e somente você saindo eu juraria que você ficou se espancando lá dentro.

– Vanessa, olha nos meus olhos, você acha mesmo que eu sou maluco? Doido de pedra?

– Não.

– Então isso pra mim já basta, agora o que você acha de me dar uma carona pro hotel? Eu só preciso passar em um lugar antes, fazer umas comprinhas sabe? Quero levar umas lembranças do Brasil.

Vanessa deu de ombros, a cidade inteira estava a caça do assassino, o retrato de Lucas Castilho ou seja lá quem ele realmente fosse, era exibido em todos os telejornais e grandes portais da internet, ele não conseguiria fugir.

Os dois subiram na viatura e ela disparou pelas ruas de Caldarias, Felipe abriu toda a janela e colocou a cabeça pra fora do veículo, ele sorriu sentindo o sol batendo no rosto enquanto o fantasma no banco de trás, gargalhava.


Não deixe de acompanhar a saga do Detetive Baggio em O Assassino de Caldarias.

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Prix, é a gnoma cozinheira da Taverna. Enquanto o Bardo e o Taverneiro levam todo o crédito por suas idéias, é ela quem trabalha nos fundos da Taverna para o site funcionar. Ama seus 5 filhos caninos, morre de medo de fantasma, adora um Blockbuster bem explosivo e nunca dispensa batata frita!

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