O Assassino de Caldarias – Final

Capa do Contos do Biel o Bardo, Assassino de Caldarias - Final. Fundo azul com sombras. Nas laterais, linhas desenhadas formam um contorno, no topo centralizado vem O Beholder Cego. A baixo: Contos do Biel o Bardo. A baixo pictograma de um farol. A baixo: O Assassino de Caldarias - Final

Final

A Role Playing Point estava repleta de jovens sentados, alguns  jogando cartas, outros vivendo aventuras fantásticas em tabuleiros de RPG. A viatura atraiu a atenção dos garotos e do dono da loja que olhavam com curiosidade os dois ocupantes do veiculo, que pararam próximo a entrada.

Baggio desceu da viatura com Vanessa ao seu lado, o detetive caminhou até o balcão principal e aguardou o atendente entregar mais um pacote de cartas a um garoto sardento de no máximo 13 anos, para em seguida chamar a atenção do homem.

– Bom dia, meu nome é Felipe Baggio. Sou um dos detetives que estão ajudando nas investigações dos assassinatos. Estou precisando de algumas informações, você é dono dessa loja há muito tempo?

– Sou sim. Pontuou o homem. Na verdade faz cerca de cinco anos que comprei o local e abri a R.P.P. eu to com tudo em dia e juro que não sei nada dos assassinatos. A criançada aqui não tem nada a ver com essa história também, o máximo que eles matam é aula pra vir jogar de vez em quando.

O homem respondeu olhando para a oficial fardada e se arrependeu no mesmo momento, com certeza ela acionaria a patrulha escolar e seu movimento teria uma queda.

Baggio se adiantou mostrando as palmas das mãos:

– Relaxe na verdade nós estamos interessados em outro tipo de informação. Qual o seu nome mesmo?

– André, André do Nascimento Filho.

– Nossa, o nome do meu pai também era André. Ele adorava jogos de tabuleiro, tínhamos um em casa que o nome era Hero Quest. Eu adorava jogar com ele e a minha mãe, bons tempos. Mas me diz, na época que a gente jogava os nossos jogos, antes de você abrir essa loja, onde esse pessoal se reunia pra jogar essas cartas ou narrar uma campanha?

O proprietário da loja pensou por um instante, ele procurava alguma armadilha na frase construída pelo detetive. Não achando nada de anormal respondeu em tom afirmativo:

– No Shopping Faria acho. Eles estão com um espaço bacana pro pessoal brincar com os board games novos e tem espaço pra eventos nerds agora lá.

– Sim, mas antes disso. Se eu estivesse no colégio nos meados de 95 a 2000 e você sabe que nessa época o bullying comia solto. Onde eu poderia me reunir com uns amigos pra jogar um RPG ou pokémon? Apontando para as crianças, o detetive não desviou o olhar do homem tentando detectar qualquer indicio de mentira.

– Olha cara, antigamente, bem antigamente, o pessoal mais “old-school” se reunia no farol abandonado pra jogar os RPGs. Mas depois de dois garotos se machucarem feio em uma queda, espalharam que o local era mal assombrado e isso coincidiu com a construção do shopping, ai a criançada migrou pra praça de alimentação.

– E esse farol que você falou, fica onde mais ou menos?

André sorriu com a expectativa de se livrar dos oficiais sem nenhuma multa ou suborno. Ele deu a volta no balcão e andou até a calçada, apontou para a baia de Caldarias.

– É só pegar essa via reto até a atlântica. Chegando à baia, vocês vão ver três barracões que o pessoal usa de estocagem, logo atrás deles tem uma torre abandonada que ficava o farol. Ele faz parte da velha Caldarias e ia ser tombado como patrimônio histórico, mas há cinco anos parte dele desabou e o pessoal da prefeitura achou melhor deixar pra lá.

– André, muito obrigado pelo seu tempo, você foi de grande valia. Dizendo isso Vanessa praticamente disparou em direção ao carro junto com o detetive. O carro partiu em velocidade costurando o transito que começava a se formar pela proximidade ao horário de almoço.

Logo que o cheiro do mar penetrou pela janela do carro Frank começou a cantar a velha canção dos piratas. A proximidade com o mar reavivava as memórias do antigo lobo-do-mar. Baggio não resistiu e cantarolou algumas estrofes arrancando uma risada da policial que dirigia o veiculo. Assim que o carro cruzou o terceiro armazém os três ocupantes do veiculo conseguiram ver a torre do farol meio destruído e o carro roubado do veterinário embaixo de papelões e sacos de estopa.

– Você não acha melhor chamarmos reforços? Interpelou o detetive.

– Olha Baggio, eu não sei como vocês fazem na Inglaterra mas esse desgraçado é meu! Eu não vou chamar a central pra daqui a meia hora o capitão Fabio aparecer aqui e posar de herói. Nós é que descobrimos tudo, ele é nosso.

Falando isso a oficial desceu do carro sacando a arma e furtivamente começou a caminhar em direção a construção. Felipe sacou sua arma e partiu logo atrás da mulher que avançava com ódio no olhar.

– Essa é pra casar! Disse o fantasma que seguia os dois sentindo o cheiro de sangue.

Dentro do farol, Stephanie acordou com os pulsos em chamas, ela estava desorientada e sua cabeça ainda doía dificultando o raciocínio, ela piscou por algumas vezes até conseguir focar a visão. Ouviu o barulho das cordas e olhou para cima achando a origem da dor nos pulsos, ela estava amarrada.

O medo cresceu em seu interior à medida que se lembrava do que tinha ocorrido, olhou para todos os lados até localizar o homem que a tinha sequestrado. Ele cantarolava baixinho, de costas para ela, seus braços faziam um movimento de vai e vem parecendo afiar algo em uma pedra de amolar.

A corda se movimentou e percebendo o movimento com o canto dos olhos Lucas se virou e sorriu para a cativa. Ele portava um facão bem afiado por sinal.

– Bom dia, dormiu bem, Stephanie?

A garota ficou em silencio encarando os olhos maníacos que a encaravam. Como se não bastasse a faca afiada nas mãos, ele ainda exibia um sorriso lupino que provocava uma série de emoções, raiva, ódio e medo.

Ela começou a gritar se chacoalhando em uma tentativa frustrante de se livrar das cordas, causando um ataque de risos no homem.

– Olha, não adianta ficar gritando, o som das ondas aqui nas pedras abafa o seu grito, você só está me dando nos nervos. Em relação as cordas, fica tranquila eu sou muito bom em dar nós, você só sai daí cortando o braço fora.

– Sabe porque eu te trouxe aqui? Eu quero ouvir você gritando, e quero que você saiba que ninguém vai te ajudar e no final, você vai implorar pra eu te deixar morrer, assim como vocês fizeram com a minha irmã.

Mas pode ficar tranquila, os policiais estão ficando bons em achar corpos, eles vão te achar rapidinho. Só vai ser preciso um ou dois mergulhadores e ter fé que os peixes não comam o seu corpo até uma ligação anônima pra TV disser onde você está.

Stephanie começou a sentir as lágrimas, Lucas sorriu mais uma vez e se virou voltando a afiar a faca.

Vanessa contornou a velha construção procurando por alguma outra entrada que levasse ao topo. Todo movimento era acompanhado de uma ou duas olhadas para o topo, o barulho das ondas camuflava qualquer coisa que estivesse acontecendo lá em cima. O que de certo modo era bom, pois a pessoa lá em cima não ouviria ela chegando. Com um pequeno pulo ela avançou pela escada em caracol que era protegida pela amurada, ela olhou para trás e sentiu-se segura com Baggio logo ali.

Chegando ao topo eles encontraram uma porta de ferro que bloqueava a entrada para o interior do farol. Olhando pelas frestas

A policial conseguiu ver Stephanie pendurada no meio do cômodo. Sem ter certeza que a vítima estava viva, ela prendeu a respiração se preparando para a invasão.

Quando ela ouviu vozes! Tanto feminina como masculina. A detetive não conseguiu segurar o sorriso, a vitima estava viva e mesmo que não conseguissem ligar Lucas ou Pedro aos assassinatos ele poderia ser acusado de sequestro e cárcere privado.

Fazendo o sinal de invasão a oficial deu acesso a Baggio que pegou um  impulso de três passos e chutou a porta enferrujada com toda a força possível.

A porta cedeu ao impacto primeiro envergando depois indo abaixo, Vanessa entrou mirando no bandido que mesmo surpreso teve tempo de se lançar atrás da refém e colocar a lâmina no pescoço da mulher.

– Vanessa, é o seguinte, eu nunca tive nada contra você, eu só to aqui pra cumprir a promessa que eu fiz no túmulo da minha irmã. Você investigou o caso e sabe o que elas fizeram. Elas embebedaram minha irmã e quando ela foi pedir por ajuda uma delas empurrou ela na piscina. Ninguém pensou em ajudar, você sabe elas são todas culpadas.

– Eu prometo me entregar, só deixa completar minha promessa e eu me entrego em seguida, eu confesso tudo, te dou todas as honras possíveis. Você vai ser a heroína que capturou o assassino de Caldarias.

– Lucas, se afaste dela. Se você se entregar tem chance de sair daqui com vida, nós estamos em dois, você sabe como a coisa funciona. A gente pode acusar elas pelo que fizeram com a sua irmã, mas você tem que desistir dessa vingança.

– Não é vingança, é justiça. Por Deus, mulher, você investigou o caso, você sabe o que elas fizeram! Ninguém vai condenar elas por um crime de quinze anos atrás. Só eu sei o que eu passei, elas destruíram minha família! Minha mãe perdeu a vontade de viver quando viu a minha irmã no caixão. Enquanto essas piranhas estavam rindo. Meu pai começou a beber e decidiu mudar de estado pra contar com a ajuda do meu tio e eu não podia fazer nada naquela época, mas agora eu posso.

– Calma Lucas, pensa um segundo, sua irmã não ia querer isso.

– Sim, se fosse ela no meu lugar eu tenho certeza que ela faria a mesma coisa.

-Não é verdade, você sabe disso, eu pesquisei sobre a sua irmã, ela era uma boa pessoa. Ela não gostaria de saber que o irmão se tornou um assassino.

Enquanto Vanessa conversava com o sequestrador, Baggio esquadrinhava o local procurando um ângulo para neutralizar o assassino sem atingir a refém.

Lucas se movia arrastando a mulher junto com ele, cada movimento era calculado para não dar brecha ao detetive nem a oficial. A cada passo assassino e a refém estavam mais próximos da janela desmoronada.

– Pare ai mesmo Lucas ninguém sobrevive a uma queda dessa altura e mesmo que você caia na água essa parte do porto é cheia de pedras, com certeza você vai tomar um caldo, bater a cabeça e morrer. Você acha que sua irmã ia querer isso?

Lucas levou a mão esquerda até as costas e sacou sua pistola sem mostrar a arma aos oficiais. Ele olhou mais uma vez para baixo, ele respirou fundo girou o corpo com força e lançou a garota para o buraco em direção ao mar.

Stephanie gritou enquanto caia, Lucas aproveitou o momento para disparar contra o detetive. Baggio se jogou no chão desviando do tiro por sorte.

Vanessa não pensou duas vezes e disparou contra o assassino, acertando-o no peito por três vezes antes do corpo desabar da torre, Baggio correu até o buraco, viu o corpo da garota que afundava lentamente na água com as mãos amarradas.

O corpo de Lucas já começava a vir para a superfície da água, quando Baggio olhou para Frank, ele assinalava positivamente para ele. Então, sem medo, Felipe lançou-se do parapeito.

Trinta minutos depois a policia chegava ao local cercando todo o perímetro com faixas impedindo a presença de curiosos. Os peritos chegavam com seus equipamentos dispostos a extrair todos os dados possíveis.

Carros e furgões televisivos tentavam a todo custo conseguir uma exclusiva com o capitão Fabio, o homem por trás da operação que levou a óbito o assassino de Caldarias.

Em uma das ambulâncias no local, Baggio era atendido ao lado de Stephanie que sorria agradecida apesar do frio. O detetive tinha se jogado de uma altura de mais de 10 metros na água fria, lutado contra as marés e resgatado a mulher antes que ela desistisse de lutar pela vida.

Uma viatura chegou próxima a ambulância e dela desceram Atílio Fernandes e sua esposa que começaram a chorar assim que viram a filha sã e salva. Baggio se afastou da cena familiar, os paramédicos decidiram levar a garota para o hospital para exames complementares.

Antes da ambulância fechar as portas, Stephanie parou a porta com uma das mãos encarou o detetive sorrindo e disse:

– Ei, eu ainda te devo um jantar, certo?

Ele então sorriu pensando na proposta,  /em seguida olhou para a detetive Vanessa que dava uma entrevista ao lado do capitão Fabio, e disse: Claro, vamos marcar…

Fim


Leia a saga completa do Detetive Baggio em O Assassino de Caldarias.

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Prix, é a gnoma cozinheira da Taverna. Enquanto o Bardo e o Taverneiro levam todo o crédito por suas idéias, é ela quem trabalha nos fundos da Taverna para o site funcionar. Ama seus 5 filhos caninos, morre de medo de fantasma, adora um Blockbuster bem explosivo e nunca dispensa batata frita!

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