O Assassino de Caldarias – Parte 2

Capa do Conto do Biel o Bardo, O Assassino de Caldarias - Parte 2
Capitulo 2

– Bom dia Detetive Baggio, como tem passado?

– Ótimo doutor.

– Tem algo que queria me contar?

– Sim doutor. Quero dizer que você foi cagado pela sua mãe, seu monte de estrume.

– Não senhor.

– Seus exames chegaram, fico feliz de ver que você está limpo.

– Sim senhor, eu deixei aquela vida para trás.

– E quanto as vozes? Elas pararam?

– Sim senhor, nem mais uma palavra, agora sou somente eu.

– Somente eu, eu mesmo e o Frank aqui.

– Soube que ontem você se envolveu em um tiroteio, e que baleou um homem, você está bem com isso?

– Sim, agi conforme o manual. Tentei efetuar a prisão, ele se escondeu e começou a atirar. Quando  se distraiu eu aproveitei a oportunidade.

– Bandido bom é bandido morto, certo?

– Prefiro bandido preso, doutor.

– Soube que vai retornar ao Brasil.

– Sim parto essa tarde. Parece que um assassino começou a agir em Caldarias e a policia Brasileira solicitou auxilio.

– Hum… Continue tomando seus medicamentos, se as vozes voltarem quero que entre em contato comigo. Tente fazer pelo menos quinze minutos de meditação assim que acordar, isso ajuda a focar suas ideias, certo?

– Pode deixar.

– Pode deixar doutor, ele vai meditar na sua cova seu escroto de merda. Sério, eu não sei como você aguenta isso cara, eu já teria sacado a arma e fodido meio mundo aqui.

Antes de fechar a porta o detetive Baggio não pode deixar de ver Frank quebrando o copo de água do doutor em cima do Ipad, o detetive sorriu, fechou a porta e seguiu seu caminho.

– Você fala demais Frank, o doutor é um bom homem, não entendo porque você pega tanto no pé dele.

– Esse cara é zica. Se meus homens abordassem um navio e ele estivesse lá eu teria dado um sorriso de orelha a orelha pra ele, em seguida jogaria o corpo no mar e rezaria a virgem maria para fazer os tubarões comerem esse monte de merda.

O avião partiu da Inglaterra diretamente para São Paulo as 15:30, Frank falava de forma pouco elogiosa sobre as comissárias, enquanto Felipe tentava assistir um filme. Mesmo com os fones de ouvido no máximo a voz do fantasma ainda atrapalhava.

A pessoa que deveria ocupar a poltrona ao lado do Detetive não embarcou, deixando Frank bem a vontade, duas pequenas garrafas de whisky apareceram vazias no banco onde ele estava. Seus olhos se fecharam e o fantasma começou a roncar.

Baggio desembarcou em Guarulhos e pegou um taxi até a estação Ana Rosa, era de lá que o trem com destino a Caldarias partiria. Frank não tinha dito uma única palavra após o desembarque, sempre ao lado do detetive ele andava observando tudo, especialmente as mulheres brasileiras.

O taxista fez um caminho bem mais longo do que o GPS indicava, mas Felipe não se importou. Seus olhos corriam pela janela vendo paisagens, pareciam memórias de outra vida de tão distantes. Chegaram a estação em cima da hora, o trem partiria dentro de quinze minutos, Baggio pagou o taxista, pegou suas malas e embarcou.

Entrou na quarta cabine, todas estavam vazias, mas ele e o pai sempre usavam essa daqui. Olhou para fora da janela e sorriu, era uma boa lembrança. Checou o celular, nenhum recado aparente. A policia local já devia saber que ele estava a caminho, sentou no banco e tentou dormir.

– Primeira vez no Brasil e já sei porque eles dizem pra todo mundo que Deus é brasileiro.

-É mesmo? Porque?

– Você viu a quantidade de mulheres lindas ali fora? Isso é o paraí­so.

– Você não presta mesmo né? Não sei o que você esta fazendo aqui ainda, com esse tua mente você devia ter ido para o inferno a um longo tempo.

– Você sabe que eu também não sei por que eu ainda estou aqui, mas já que eu estou aqui é melhor ser útil certo?

O trem partiu da estação em ritmo lento. O barulho dos vagões embalavam o sono tranquilo do detetive e mesmo Frank dera uma trégua ao homem. O trem descia as serras em direção a Caldarias passando por São Bento e Maria Quitéria no caminho.

Em São Bento muitas pessoas embarcaram e aos poucos as vagas nas cabines eram preenchidas. Uma mulher abriu a porta da cabine aonde Baggio estava e entrou. Vendo o homem dormindo ela tentou fazer o mínimo de barulho possível, falhando miseravelmente.

Seu pé direito enroscou na rodinha da mala que empurrava e ela caiu para frente. Na tentativa de se segurar em algo, bateu na porta produzindo um barulho alto antes de cair no chão da cabine.

Felipe acordou assustado, a arma estava na mão antes que se desse conta. Seus olhos foram da mulher que tentava se levantar para o fantasma sentado no outro lado da cabine, Frank olhava para a mulher como um alcoólatra olha para um whisky dezoito anos, ele estava apaixonado.

Baggio guardou a arma  ao mesmo tempo em que avançava em direção a moça oferecendo apoio. Ela aceitou a ajuda com o rosto vermelho e um sorriso sem graça, ele foi até a porta e pegou a grande mala, mesmo sob o protesto.

– Me desculpa moço, eu juro que tentei entrar em silencio, eu não queria atrapalhar seu sono. É que a cabine onde eu estava foi invadida por uma famí­lia inteira com duas crianças de colo que não param de chorar, então eu sai pra procurar outra e aí…

– Você caiu.

– Isso.

– Sem problemas, fique a vontade. Você esta indo pra Caldarias?

– Sim, eu estou indo visitar o meu pai. Moro em São Paulo mas vou passar um tempo com ele.

– Bom, então vamos juntos. Digo não visitar o seu pai mas até a cidade, eu também estou indo para Caldarias.

– A trabalho?

– Sim, Eu, é isso, a trabalho.

– Cara você é péssimo, a gata praticamente caiu aos seus pés e você faz isso? Gagueja, fica com vergonha? Desisto, você é um caso perdido. Meu Deus do céu, porque eu morri senhor?

– Meu nome é Felipe, Felipe Baggio, eu sou um dos detetives que vieram dar uma mão nas investigações.

– Ah o caso do maníaco de Caldarias, só falam disso na televisão. Você acha que vai demorar muito pra pegar ele?

– Sinceramente eu não sei mas com toda essa exposição na mídia é bem capaz que esse assassino já tenha se mandado da cidade.

– Ela já tá caidinha por você. É o sotaque britânico cara, aproveita e fala que você acha ela maravilhosa que ela é sua, mas antes pergunta o nome dela, essa merece uma tatuagem.

– Qual o seu nome?

– Stephanie, eu nasci e cresci em Caldarias, mas fui pra São Paulo já tem cinco anos. Você acha que os noticiários estão certos? Que é alguém da cidade que esta matando?

  • Geralmente o assassino é uma pessoa próxima das vitimas, alguém que tenha a confiança delas, por isso nós fazemos um perfil das vitimas para achar a conexão com o assassino.

– O seu sotaque é estranho, você é do sul?

– Não, eu nasci em São Paulo, mas aos dez anos meu pai arrumou um emprego na Inglaterra e toda a família foi pra lá. Meu português está um pouco enferrujado, muito tempo sem praticar da nisso. Você trabalha com o que em São Paulo?

– Organização de eventos. Casamentos, aniversários, festas e tudo o que tiver multidão e mídia.

– Eu sou avesso a isso, não gosto de multidões.

Nesse instante Felipe notou o tamanho da mala que a garota levava, achou estranho e pensou se deveria levar o assunto para esse lado. Seu olhar foi atraí­do para o pirata que confirmava qualquer coisa mostrando seu polegar para o detetive.

– Mala grande hein?

– Vou passar um tempo com meus pais em Caldarias, o mercado não está muito bom em São Paulo no momento, então eu ganhei umas férias forçadas.

– Foi demitida?

– Sim.

– Bom, você sabe né, até mesmo um pé na bunda te joga pra frente.

– Eu só vou me reorganizar, é uma coisa temporária essa ida pra casa.

– Seus pais sabem?

– Não, quer dizer, meu pai sabe, minha mãe não. Ela vai endoidar quando souber, ainda mais quando ver a conta do cartão de credito que tá pra chegar.

– Nem vai.

– Oque? Surtar? Com certeza vai, você não conhece a Dona Neuza.

– Eu não conheço a Dona Neuza mas nenhuma mãe consegue ficar brava com o filho que acaba de voltar pra casa.

– Sério, você não conhece minha mãe. Mas isso está parecendo um interrogatório, por um acaso eu sou suspeita?

– Me diga você, e ai, você é suspeita?

– Espero que não, tenho pavor de coisas mortas.

– Ei isso ofendeu sabe?

– Agora vamos falar de você. Saiu de São Paulo foi pra Inglaterra e virou policial, agora voltou para solucionar um crime em uma cidadezinha do interior? Acho que vou escrever sobre isso no meu blog, da pra fazer um filme com isso.

– Ha, Ha, Ha, acho que um filme sobre minhas aventuras não vai dar dinheiro. Mas se colocarem o Brad Pitt para me interpretar, aí pode ser.

– Então o que te levou a virar um detetive importante para vir ajudar a desvendar esses assassinos seriais?

– Eu sou fascinado pela mente deles. Felipe sorriu destruindo a tensão que a pergunta havia provocado, passou a mão no cabelo e continuou. Nós podemos dividir os assassinos seriais em dois grupos. Os que estão nisso pela atenção, esses querem ser pegos. Eles deixam pistas, esfregam na cara da sociedade que estão ali e que vão matar.

– Qual o segundo grupo?

– O pior tipo, aquele que mata por vingança ou algum motivo mais banal. Esse assassino não quer ser pego, ele é minucioso, mata e ponto final. Segundo a Wired existem mais de um milhão de sociopatas desse tipo soltos por ai. Agora imagina o tanto de assassinatos que aconteceram e ninguém sabe.

– Você sabe como impressionar uma garota, NERD!

– Você já pegou algum desses?

– Já.

– Como foi?

– Não foi bonito, muita gente se machucou. É melhor mudarmos de assunto, essas coisas atraem e eu estou justamente pedindo aos céus para que esse cara seja do primeiro tipo.

A velocidade do trem diminuiu, a estação central de Maria Quitéria se aproximava.


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Já foi considerado um Elfo – Paladino, hoje está mais para Meio Elfo – Bardo. Ama gastar a sola do tênis andando com os 4 filhos caninos e se pudesse viveria ao norte do Equador.

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